O Último Soldado: Livro Um
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📖 Você está lendo uma prévia — os capítulos 1 e 2 de O Último Soldado: Livro Um.
O livro completo será lançado até o final deste ano, se Deus quiser.
Os Bosques Verdejantes não caíram em um único dia. Elas murcharam, lenta e dolorosamente, como um galho cortado da videira.
Quando os Bosques Verdejantes enfraqueceram demais para resistir, o Domínio Cinzento varreu do Leste, prometendo salvação. Três anos atrás, a Guerra Cinzenta selou tudo: desarmamento total, silêncio sobre o Nome.
Aldeias como GroveHeart sobreviviam dobrando-se sem quebrar. Eles entregavam sua cevada e escondiam suas orações no porão.
Na casa dos Amri, o dia começava antes que o sol pudesse perfurar a névoa cinzenta que vinha do Mar de Vidro.
Galos cantavam, um som agudo e irregular que sinalizava não esperança, mas o início de outro dia de trabalho sob a cota. Fumaça do ensopado de cevada curvava-se para fora da lareira, cheirando a fumaça de lenha e à terra úmida das Marcas.
Elior Amri puxou a corda do poço, mãos queimando onde o cânhamo áspero mordia palmas já calejadas de anos arrastando sacos de grãos. O balde emergiu, madeira velha gemendo, água chapinhando contra as tábuas inchadas, mas ele pausou no meio do movimento, olhos fixos no horizonte leste.
Dezessete anos. Ombros largos de carregar fardos que curvavam homens mais velhos. Mas era outro peso que pressionava sua espinha agora, não água, não grãos. O peso de um irmão perdido. O peso de perguntas sem resposta que o mantinham acordado quando a casa dormia, olhando para o teto de palha e sussurrando orações que pareciam bater contra madeira e voltar vazias.
O ar da manhã carregava enxofre, acre, amargo, trazido pelo vento leste. O cheiro do Império. O cheiro das forjas que haviam engolido Ezra e cuspiria de volta... o quê? Um soldado? Um estranho? Elior não sabia. E isso o aterrorizava mais do que qualquer resposta poderia.
"Cuidado com o derramamento, sonhador," uma voz chamou da horta, rachada pela idade, mas afiada como sílex.
Elior, dezessete, o guardião silencioso. Assombrado pelo irmão que partiu e pelo chamado que teme.

Deborah, sua irmã mais velha, saltou a cerca baixa de pedra com a graça de um gato selvagem. Aos dezoito anos, ela era a borda serrilhada da quietude dos Amri. Ela tinha olhos que não perdiam nada e mãos que nunca estavam ociosas. Ela ajustou o rolo de corda em seu cinto, uma ferramenta de pastor que ela empunhava com precisão alarmante contra lobos e desgarrados igualmente, e jogou uma longa casca de cenoura nele.
"Se você está olhando para a estrada de novo," ela disse, sua voz caindo para um murmúrio para que os vizinhos não ouvissem, "Ezra não está nela."
Elior pousou o balde, a água chapinhando ritmicamente contra suas botas enlameadas. Elior respirou fundo. "Ele poderia. Ele... ele tem que estar vindo. A temporada de outono está terminando. Reoboão disse que há rumores."
"Rumores não colocam botas no chão, Elior," desafiou Deborah, embora a dureza em seu tom fosse uma armadura fina sobre sua própria preocupação. "E se ele voltar? Ele ainda será Ezra? Ou apenas mais um deles?"
Ela gesticulou vagamente em direção ao horizonte leste, onde o sol nascente lutava para queimar através da poluição industrial. Ambos conheciam as histórias. Sabiam o que acontecia aos garotos levados pelo "recrutamento" do Domínio. Eles retornavam, se retornassem, com olhos frios como moedas e bocas cheias dos hinos do Hegemon.
Deborah, dezoito, a protetora com os pés no chão. Não confia em nenhuma profecia que exija uma sepultura.

"Ele é forte," disse Elior, as palavras vibrando em seu peito como um voto. Ele pegou o balde novamente, o músculo em sua mandíbula pulando. "Ele lembra quem ele é. Ele lembra o Nome."
Eles trabalharam em conjunto, um ritmo nascido da necessidade e anos de silêncio compartilhado. Enquanto separavam os vegetais de raiz para o mercado noturno, esfregando a sujeira de nabos e cenouras, cantarolavam uma melodia que não tinha palavras. Para um soldado que passasse, era apenas uma melodia de trabalho sem sentido. Mas para eles, era o ritmo de Nosso Escudo, um salmo de YHWH proibido pelos magistrados. Eles o mantinham quieto, uma vibração na garganta mais do que uma canção, uma rebelião secreta compartilhada com as cabras e o solo.
Seus pais, Nadiv e Miriam, já estavam nos campos quando o sol nasceu. Elior os via da janela da cozinha, duas silhuetas curvadas sobre a terra vermelha, movendo-se no ritmo silencioso de décadas de trabalho compartilhado. Mesmo de longe, ele reconhecia o jeito que Nadiv pausava a cada três passos para limpar a testa, o jeito que Miriam ajustava o chapéu de palha sem olhar. Pequenos gestos. Linguagem de um casamento forjado em solo duro e fé mais dura ainda.
Nadiv era um homem de silêncio robusto como carvalho velho. Suas mãos, grandes, calejadas, manchadas de terra que nunca saía completamente, esculpiam versos das Escrituras nos cabos de ferramentas à luz fraca de lamparina. Salmo 23 no arado. Salmo 91 no machado de lenha. Salmo 18 na pá. Um conforto perigoso. Se os magistrados do Domínio encontrassem, seria prisão. Ou pior. Execução pública como "exemplo" para aldeias que ainda ousavam lembrar o Nome.
Miriam, cabelos grisalhos presos em trança simples que cheirava a lavanda seca, sussurrava graça sobre cada refeição, mesmo quando era apenas pão duro e água com sal. "Obrigada, Senhor, por este pão," ela dizia, olhos fechados, mãos entrelaçadas sobre a mesa gasta. "Por esta água. Por este dia. Por esta família." Como se desafiasse as torres de vigia do Domínio com gratidão.
Elior vira soldados Cinzentos passarem pela janela durante essas orações. Miriam nunca parou. Nunca abaixou a voz. Nunca abriu os olhos até terminar. E os soldados... nunca entraram. Talvez por respeito. Talvez por medo de algo que não entendiam. Ou talvez, Elior pensava às vezes, porque até homens de ferro reconheciam o sagrado quando o viam.
Eram uma família prendendo a respiração, esperando o outro sapato cair. Mas enquanto esperavam, viviam. Oravam. Amavam. Trabalhavam a terra com mãos que se recusavam a tremer. E isso, Elior estava aprendendo, era sua própria forma de resistência, não espadas, não gritos. Apenas fidelidade teimosa ao ordinário sagrado de cada dia.
"Por Sua mão," uma voz rouca chamou da estrada.
O velho Reoboão, o carroceiro, passou, sua mula movendo as orelhas para as moscas. O homem era uma fixação da aldeia, suas costas curvadas como um pinheiro deformado pelo vento, mas seus olhos ainda mantinham uma centelha dos velhos dias. A saudação era comum o suficiente, para um soldado, significava a mão do Hegemon; para os fiéis, era um juramento encoberto a YHWH.
"Por Sua mão," respondeu Elior, oferecendo um sorriso rápido.
Reoboão parou a mula e inclinou-se. "Você sabe por que a terra é vermelha aqui, garoto?" Ele apontou para o solo. "Os antigos diziam que antes da Guerra Sem Nome, esta colina era verde até o horizonte. Trigais dourados onde agora só cresce cevada magra." Ele cuspiu na poeira. "Trezentos anos, e a terra ainda se lembra da seca. O solo não esquece."
"Eu sei," disse Elior, sem saber o que mais dizer.
"Você sabe com a cabeça," corrigiu o velho, colocando a mula em movimento. "Quando souber com as mãos, vai ter medo de verdade."
A conversa com Reoboão deixou algo quente no peito de Elior, não raiva, mas uma urgência que não sabia nomear. "Quando souber com as mãos, vai ter medo de verdade." As palavras cutucavam como brasa sob as costelas.
Quando a névoa finalmente se dissipou, queimando sob o brilho do meio da manhã, Elior já não conseguia ficar parado. Disse a Miriam que estava verificando a linha da cerca, mas seus pés o levaram ao olival que margeava a floresta mais selvagem, dedos roçando o tecido grosso da capa, verificando o contorno do punho escondido.
O bosque era uma catedral, pilares de carvalho retorcido erguendo-se como colunas antigas, dossel de folhas filtrando luz do sol em raios dourados que cheiravam a resina e terra úmida. Silêncio tão espesso que cada passo de Elior sobre folhas mortas parecia profanação. Ou talvez fosse o que ele estava prestes a fazer.
No coração do bosque, um carvalho velho como os reis guardava seu segredo. Elior ajoelhou-se diante do oco na base do tronco, dedos tremendo, não de frio, mas de algo próximo a reverência. Ou medo. Ele não sabia qual. Talvez ambos.
A espada jazia embrulhada em linho manchado de mofo e terra. Ezra a havia encontrado quatro anos atrás, quando ainda era menino ousado o suficiente para se afastar de GroveHeart em ato rebelde, explorando as ruínas antigas além da floresta. Ele voltara com olhos brilhantes, sussurrando sobre "um tesouro dos reis antigos", escondendo-a aqui antes que os pais descobrissem.
Ele desembrulhou o linho com cuidado, como se tocasse relíquia sagrada. A espada era simples, sem pomos de joias ou brasões dracônicos que os oficiais do Domínio favoreciam. Apenas aço honesto, lâmina reta, cabo de couro gasto. Mas quando seus dedos tocaram o metal frio, o ar ao redor pareceu... mudar. Não zumbir. Não vibrar. Apenas... esperar. Como se a própria floresta prendesse a respiração. Ele assumiu uma postura, pés mudando no barro, imitando os movimentos que vira Ezra praticar anos atrás com um cabo de vassoura.
Passo.
Estocada.
Aparada.
Na terceira estocada, algo estranho aconteceu. Seus dedos pareceram afundar no cabo. A madeira. A carne. Tudo a mesma coisa. Um segundo. Menos. Elior sacudiu a mão, respirando fundo. Cãibra. Tem que ser cãibra.
Um fazendeiro. Apenas isso. Balançando uma relíquia que não entendia. Seus pés continuavam. Seus braços. Suor. Enquanto se movia, sussurrava - tão baixo que quase era só ar - as palavras que Nadiv lhe ensinara.
"O Senhor é minha rocha..."
Corte.
"...e minha fortaleza..."
Passo.
Deborah o observava das sombras do muro de pedra, o coração dividido. Parte dela via um menino brincando com fogo, a mesma parte que verificava os suprimentos três vezes, que contava os passos entre a casa e a cerca, que nunca dormia sem conferir as trancas. Afinal o Domínio estava há 3 semanas ali por perto de GroveHeart, monitorando a região, coletando mantimentos e recrutando os melhores candidatos para o exército. Mas outra parte, a que observava sem piscar, a que sabia quando alguém mentia na feira, reconhecia algo nos movimentos dele. Não habilidade. Intenção.
De repente a lâmina capturou um raio de sol e, por um segundo, ela jurou que as letras hebraicas gravadas no aço brilharam em branco, não um reflexo, mas um pulso.
O coração dela disparou. Não de medo. Ou não apenas de medo. Era a mesma sensação de quando Miriam orava com olhos fechados e os soldados não entravam. Algo real ali. Algo que ela não podia medir nem descartar.
Pare com isso, pensou, mas a ferocidade vacilou. Não atraia os olhos deles. Por favor.
Elior congelou no meio do balanço, espantado com o que acabara de acontecer, afinal isso nunca aconteceu antes, nem quando Ezra empunhava a espada.
Os pássaros haviam parado de cantar, todas as árvores paradas pois não havia mais vento. A primeira coisa que se mexeu foi um corvo que voou para cima, seus olhos fixos em Elior e depois partindo em direção a aldeia.
De onde veio esse brilho?, Deborah perguntou-se.
O silêncio que caiu não era a paz do bosque. Era a quietude de uma respiração presa antes de um grito.
Da aldeia abaixo, 3 minutos depois uma trombeta soou, áspera, dissonante e aterrorizantemente próxima. Não era a trombeta de aviso da aldeia. Era o rugido profundo e respondendo de uma trombeta de guerra do Domínio.
Elior alcançou o topo da colina, pulmões queimando, pernas tremendo de corrida desesperada através do bosque. Sem tempo para recuperar o fôlego, ele viu seu mundo queimando.
Abaixo, talvez cem metros de encosta íngreme separando-o da aldeia, GroveHeart não era mais uma aldeia. Era um matadouro de fumaça e pânico. Cavaleiros do Domínio trovejavam pelas ruelas estreitas, os cascos de seus cavalos revolvendo as hortas em lama. Eles vestiam as cores do Domínio Cinzento, aço escurecido e lã carbonizada, e seus tabardos brilhavam com o sigilo do dragão vermelho, o próprio símbolo que Ezra marchara para servir.
Telhados cobertos de palha da última colheita já estavam engolfados em chamas laranjas famintas. Gritos, agudos e aterrorizados, cortavam a fumaça espessa e oleosa. Agora, o Domínio havia cavalgado para apagar essa faísca. No centro da praça principal, onde o poço de pedra ficava, Elior avistou seus pais. Nadiv e Miriam, cabeças curvadas sob grilhões de ferro, eram empurrados por soldados em direção a vagões de prisioneiros estacionados na estrada leste, a mesma estrada que levava ao Domínio. Cinquenta metros separavam seus pais da jaula de ferro. Talvez menos. Um cavaleiro Cinzento em um cavalo blindado erguia-se, latindo ordens para todos, e não se podia entender o que diziam ali naquele momento.
Soldados a pé batiam os punhos em peitorais de ferro, um movimento irregular e cortante, como uma lâmina cortando o ar, e gritavam "Pelo Hegemon!" enquanto arrastavam moradores de suas casas.
O comandante sentava imóvel no meio do caos. Sua armadura de escamas brilhava com uma iridescência verde doentia sob a fuligem, e seu elmo era moldado a partir do crânio de uma besta, chifres curvos varrendo para trás das têmporas. Ele não gritava; não precisava. O peso de seu olhar parecia pressionar o ar do vale, pesado como uma nuvem de tempestade.
A mão de Elior foi para o quadril. Vazio. Seu estômago despencou como pedra em poço sem fundo. Não. O sangue drenando do rosto, ele olhou para baixo, a espada pendia exposta em seu cinto, metal polido capturando a luz do sol como um farol gritando traidor. Em seu pânico cego, ele esquecera de devolvê-la ao oco. Agora cada soldado no vale poderia vê-la. Cada olho. Cada lâmina.
"O que você pensa que está fazendo?"
Deborah apareceu ao seu lado, deslizando da samambaia como um fantasma. Seu rosto estava manchado de terra, seus olhos arregalados e fixos no punho. "Eles vão te matar por isso! Você tem que escondê-la!"
"Eu não posso ficar aqui enquanto eles arrastam a mãe embora," disse Elior, as palavras moendo através de dentes cerrados. Ele deu um passo à frente, cada instinto gritando para que corresse ladeira abaixo.
Deborah agarrou sua manga, seu aperto como ferro. "E você não pode salvá-la morto! Olhe para eles, Elior. Olhe!" Ela apontou para a palha queimando, a linha blindada. "Esconda a lâmina, ou eles vão nos queimar com os outros. Por favor." O medo afiou sua voz em um sibilado desesperado, mas sua mão não tremeu.
Era tarde demais.
Na aldeia abaixo, o cavaleiro montado virou a cabeça. O sol do entardecer, rompendo a fumaça, capturou o aço polido da espada ancestral na colina. Ela brilhou, um único flash desafiador de luz na escuridão.
O comandante imobilizou-se. Lentamente, deliberadamente, ele baixou sua lança até que a ponta de ferro apontasse direto para o coração de Elior. Um corvo lançou-se de sua manopla, circulando uma vez com um grito áspero antes de voar em direção à colina, marcando o alvo.
O cavalo de guerra empinou, seus olhos brilhando com uma luminescência carmesim não natural. O comandante latiu uma única ordem gutural e áspera, e os soldados abaixo entraram em posição, fechando o anel ao redor dos prisioneiros.
Lanceiros moveram-se pela linha de aldeões, puxando homens e mulheres para seus pés, exigindo juramentos. Quando ninguém falou, quando o medo sufocou a verdade em suas gargantas, o comandante sinalizou em direção a Nadiv e Miriam. Eles eram o único par que os soldados haviam pulado. Seu olhar varreu do casal amarrado até as duas figuras aterrorizadas na colina, e uma compreensão cruel endureceu suas feições.
Os nós dos dedos de Elior embranqueceram ao redor do punho. "Senhor," ele respirou, a oração escapando sem ser convidada. "Proteja-os."
Luz cintilou ao longo das inscrições da lâmina. Era fraca, mas contra a fumaça, era o suficiente. O lábio do cavaleiro curvou-se sob seu elmo. Ele deu um comando, e um soldado pisou atrás de Nadiv, sacando uma lâmina curta e serrilhada, molhada com alguma substância estranha.
O soldado não hesitou. Ele cravou o aço no ombro de Nadiv, não um golpe mortal, mas um golpe cruel e incapacitante. Nadiv desabou na poeira sem um som.
Um grito rasgou a garganta de Miriam. Os aldeões vacilaram, uma onda de horror coletivo passando pela linha. Alguns caíram de joelhos na lama; outros amaldiçoaram o céu. Os soldados riram, um som áspero e latido, e os empurraram para baixo com cabos de lança. O comandante assistiu, impassível, como se observasse insetos. O corvo retornou ao seu ombro, abrindo as asas e coaxando uma zombaria da dor dos aldeões.
Então, o cavaleiro levantou sua lâmina escura em uma saudação em direção à colina. Era um desafio. Desça e morra.
Algo gelado se acendeu no peito de Elior, não calor, mas frio cortante como lâmina de gelo atravessando costelas. Seus olhos foram para Nadiv. Seu pai jazia na poeira, mão pressionada contra o ombro, sangue escorrendo entre os dedos. Miriam estava sobre ele como escudo de carne, uma mão na ferida, outra estendida como se pudesse parar lâminas com a palma.
Nadiv ergueu o olhar. Encontrou o de Elior através da fumaça. Não disse nada. Apenas assentiu. Um único movimento, o mesmo que fazia quando Elior terminava uma fileira no campo. Suficiente.
A raiva que subiu não foi a raiva quente de criança ferida. Foi a raiva, como gelo fervente? Como uma ferida que queimava de frio? A raiva gelada de homem vendo sua família torturada, não, não gelada, ardente. Ardente.
Sua mandíbula apertou. Seus olhos fixaram-se no comandante, e pela primeira vez desde que a trombeta soou, ele não tremeu. A espada em seu quadril pareceu um fragmento de gelo por um batimento cardíaco. Então o frio passou, substituído por calor crescente e aterrorizante, não raiva agora, mas algo mais antigo. Algo sagrado. Algo perigoso.
"Corra, seu tolo!" Deborah puxou-o, cravando os calcanhares. Mas os pés de Elior estavam enraizados na terra. O cavaleiro desmontou, suas botas esmagando o cascalho. Sua espada crepitava com energia roxa, arcos de feitiçaria queimando padrões de geada na grama moribunda.
Os lábios de Elior moveram-se. "Senhor... seja minha força. Espalhe esses inimigos como palha diante do vento."
O silêncio o respondeu.
Não o silêncio de paz. O silêncio de oração batendo contra céu de bronze e caindo de volta, morta.
As letras na lâmina piscaram, uma vez, duas. E escureceram. O zumbido que havia vibrado através de seus ossos morreu, deixando apenas silêncio ensurdecedor. A espada, momentos atrás leve como pena em sua mão, agora puxava seu braço para baixo como âncora arrastando-o para profundezas.
Seu estômago se contorceu. Sozinho. Estou sozinho. O pensamento cravou garras em sua garganta, sufocando as palavras que tentava rezar. Não. Não agora. Não com eles ali embaixo. Mas o medo roía. Ataque. A voz do orgulho ferido soava como serpente sussurrante. Derrube-os. Agora. A espada tem poder. Use.
Elior puxou uma respiração irregular, balançando a cabeça como se pudesse sacudir a voz para fora. Não. Este não era o caminho. A espada sem o Senhor era apenas ferro. E ferro quebrava.
Deborah viu os soldados avançando encosta acima. Percebendo que estavam expostos, ela caiu para trás em um rolamento controlado, desaparecendo atrás de uma carroça abandonada. Ela apareceu sob seu eixo, coração martelando contra as costelas, sua funda já na mão, pronta para lutar ou correr no momento em que Elior se movesse.
Elior limpou sua mente, e buscou a calma que ele encontrava em sua alma. Ele sentiu o Senhor na batida de seu coração, cada pulsação como um sino ancestral tocando na profundidade de seus ossos.
Então, as letras brilharam. Não foi um piscar desta vez. Foi um pulso, azul-branco e cegante, explodindo através de seus dedos como uma estrela contida. A luz empurrou a fumaça no celeiro, lançando sombras longas e fortes contra as paredes.
O cavaleiro pausou no meio do passo. Seu cavalo gritou e disparou, as crinas do animal em pé, sentindo um predador maior que seu mestre. Os olhos de Elior brilharam azul-branco, e o ar ao seu redor tremeu como vidro prestes a quebrar. Elior deu um passo à frente, e o medo derreteu, substituído pelo calor da espada espalhando-se pelo seu braço como luz do sol após um longo inverno.
Com um rugido que era meio oração, meio grito de batalha, Elior saltou do cume. Ele segurou a lâmina alta, sussurrando o Salmo 18 ao vento. "Ele faz os meus pés como os da corça; Ele treina as minhas mãos para a batalha."*
Por uma batida de coração, sua sombra esticou-se longa e imponente sobre a encosta, e o comandante estremeceu, como se um gigante descesse sobre ele.
O calor ondulou o ar. A pressão empurrou para baixo como se montanhas inteiras descendessem do céu. Os ouvidos dos soldados explodiram, o sangue escorrendo pelas suas faces. Isso era a Glória do Senhor: devastadora, visível, pesando os homens contra a terra.
Soldados Cinzentos gritaram, seus escudos escurecendo e dobrando sob a pressão invisível. A oração de Elior tornou-se trovão no vale. A luz branca cortou entre eles, não uma lâmina mas a própria Glória. Homens voaram para trás como se pisados por cascos de gigantes, ossos quebrando antes de tocarem o chão.
O surto deixou o Cavaleiro Cinzento cambaleando. A "Aliança" exigia rendição total da força, e o cavaleiro cambaleou quando a luz o alcançou. Mas ele era um veterano de guerras sombrias. Ele manteve sua posição, sacando uma segunda lâmina, metal preto que parecia beber a luz, lançando uma sombra que consumia a grama ao redor de suas botas.
Isto não fez Elior vacilar.
"ESTA NÃO É MINHA FORÇA, MAS DE DEUS!" Elior declarou. As palavras foram arrancadas de sua garganta, cruas e desesperadas. Ele não se gabou; ele implorou. "SENHOR, ESTILHAÇA O CÉU DE FERRO DELES! FAÇA-OS RESPONDER A TI!"
"Garoto," o cavaleiro rosnou, sua voz um moedor de pedras. "Você não sabe com o que está brincando." Sua espada tremeu, amortecendo a luz enquanto ele avançava.
O comandante investiu.
Elior levantou a lâmina assim que um redemoinho de fogo branco explodiu do gume. Não era um feixe; era uma tempestade. Vento gritante enrolou-se em um anel ao redor da fazenda, arremessando poeira, brasas e pedras soltas nos olhos dos cavaleiros. Cavalos tropeçaram e derrubaram seus cavaleiros. O comandante lutou para ficar de pé, inclinando-se contra a ventania.
Ele esporeou para frente, dentes à mostra em um rosnado, mas o vento o empurrou para o lado. Ele tentou novamente, cortando o ar, mas a pressão se expandiu, um círculo crescente de rejeição divina que o manteve longe dos prisioneiros.
Da linha das árvores, uma trombeta remanescente soou, selvagem e não polida. Flechas sibilaram na praça, batendo nesta parede de energia e ventania, caindo em pedaços.
O cavaleiro horrendo rosnou, olhando da tempestade rodopiante para seus homens dispersos. Ele sinalizou uma retirada que claramente odiava. Seus homens derraparam para trás, empurrados encosta abaixo pelo vento implacável. Deborah correu ladeira abaixo com os aldeões libertados, quebrando travas de vagões com uma pedra, seu rosto feroz com triunfo.
"A espada escolheu você," disse o cavaleiro calmamente. O vento arrancou as palavras, mas Elior as ouviu. "Mas você não sabe suas consequências. Isso será sua ruína."
Ele sinalizou para seus homens recuarem, não disposto a desperdiçar vidas contra um poder que não podia tocar.
"Eu conheço o nome do meu Senhor," Elior respondeu, sua voz se firmando. "Ele revelará o resto. Agora vá embora."
A mandíbula do cavaleiro apertou. "Que seu Deus cuide de você, por enquanto." Ele girou seu cavalo e recuou para a fumaça enquanto o vento morria.
Um treinador ao seu lado assobiou, e o corvo desceu para a manopla do comandante antes que eles desaparecessem na névoa. A retirada não foi um ato de misericórdia; eles simplesmente não podiam quebrar o círculo de vento.
Aldeões emergiram da poeira, silêncio atordoado dando lugar ao desafio. Uma velha cuspiu atrás dos soldados em fuga; um menino atirou uma pedra na fumaça. Seus gritos eram como... Como o quê? Como algo vivo. Deborah correu para o lado de Elior, agarrando seu braço para firmá-lo.
"Elior," ela sussurrou, olhando para suas mãos trêmulas. "Você conseguiu."
"Não," ele disse, sua voz crua, a espada deslizando de volta para sua bainha. "O Senhor conseguiu."
Ao seu redor, o silêncio atordoado cedeu ao choro. Uma velha caiu de joelhos, brazos erguidos para o céu, os lábios se movendo em oração silenciosa. Vizinhos se abraçavam, lágrimas e fumaça marcando seus rostos. Crianças apontavam para os restos de luz que ainda pairavam no ar, abrindo as bocas em admiração e medo. O cheiro da fumaça e do sangue misturava-se com o alívio quase tangível, um aroma de morte e sobrevivência dançando junto. Um menino chorava nos ombros de sua mãe, enquanto um homem idoso sussurrava agradecimentos até sua voz partir em soluços.
Fim da prévia.
O livro completo — com os 13 capítulos, interlúdios, epílogo e glossário — será lançado até o final deste ano, se Deus quiser. Acompanhe as novidades na Taverna Sagrada.